Uma parte da sociedade ganha mais corpo a cada ano que passa e este crescimento é objeto de observação constante deste que vos escreve. Chamada de periferia pelos menos íntimos e formais observadores ou  de  “meu pedaço”, nomeação dada por quem é de dentro dos territórios, este setor da sociedade não é apenas vitrine de madeira e de alvenaria  crua para o mundo, agora é  também conceito que sublinha o caminho para aonde vão as “quebradas” do País.

Evidentemente algumas instituições políticas deram contribuições menores e maiores na direção das periferias, mas elas mostraram  a sua própria força e ganharam outra proporção a partir do momento que começa a perceber a sua  capacidade de “se virar” e potência econômica, criativa, social e cultural.

Nos últimos 20 anos temos no Brasil um efeito que tenho classificado como “Emergente do emergente” e neste caso me refiro às relações internas das comunidades brasileiras com o crescimento do País no contexto internacional, pelo menos entre 2002 a 2014, de forma mais enfática e não dissociando, claro do cenário político brasileiro.

Como consequência deste período de 12 anos, apontando o calendário para os anos seguintes, as periferias passaram a ter outro significado para os próprios atores internos, ou seja, as pessoas que cresceram fazendo valer a economia criativa e periférica. Aqui, posso citar a Feira Preta e Preta Hub, ambas iniciativas da CEO Adriana Barbosa, ou ainda o Banco Afro, que tem Diego Reis como CEO. Tive o prazer de dividir espaço com ambos no Podcast Lastro, do site Aporte Economia.

Este panorama move meu pensamento para a análise do desenvolvimento social e econômico e é a combustão da Agência Seu Mercado, que busca informações e dados do público que se encaixa na classificação social determinada como minorias, que são na realidade a presença da diversidade em vários sentidos no Brasil e no mundo. É a partir deste universo que podemos ler a sociedade.

Esse público passou a ser muito importante também politicamente na medida que representa uma quantidade imensa de votos, que por um certo período foi ignorado por dirigentes partidários responsáveis pelo desenvolvimento das políticas públicas. Basta vermos o resultado das eleições de 2018, quando o país se dividiu entre Jair Bolsonaro, que verbalizou de forma populista a metade do país queria ouvir e Fernando Haddad, o petista indicado pelo Partido dos trabalhadores.

Nota-se que existe um aumento da participação eleitoral daqueles que representam ou daquelas que representam a maioria desse público periférico que são as mulheres,  especificamente as mulheres negras que tanto por meio de coletivos e candidaturas coletivas, como pela junção e aglutinamento da força de movimentos sociais, que defendem o que entendem como interesses da periferia, os negros, os LGBTQI e outros marcadores de identidade.

Essa aglutinação de forças levou a um aumento da participação política eleitoral que se converte em cadeiras nas câmaras municipais e mesmo em algumas prefeituras do país.  Ainda que com problemas  e tensões

Importante frisar aqui que este aumento da participação política eleitoral não se deu pela batuta única e exclusiva do PT, por exemplo. Houve um aumento da participação do PSOL, as lutas de mandados coletivos de mulheres, como as da vereadora carioca Mariele Franco, assassinada de forma brutal no Rio de Janeiro,  a candidatura de do Boulos nas eleições de 2020 em São Paulo e também da necessidade de se buscar uma nova roupagem que pareça ser capaz de abarcar os discursos e práticos que a cada dia se mostram mais distantes dos primórdios do governo petista, que parece-me ter se descuidado e perdeu a mão de sua influência anterior nas quebradas.

A frente de estudos e pesquisas sobre a sociedade há quase 30 anos, com toda clareza é importante destacar a necessidade constante da análise sobre o que representa essa periferia e como ela enxerga o mundo e como relação com os partidos políticos é uma questão premente até porque tem se demonstrado que essa periferia não quer mais um dono e busca saber para onde está indo e bem longe da batuta desse ou daquele grupo político. É o que parece vale continuar a conferir.


Marcos Agostinho Silva é sociólogo, cientista político e diretor do Instituto Mas Pesquisa.


INFORMAÇÕES PARA A IMPRENSA
BWMA Comunicação Corporativa
Gustavo Bornwinnson
gustavo@bwma.com.br

11 98217-1827