Por Marcos Agostinho Silva
Sociólogo e diretor do Instituto MAS Pesquisa

A construção da “terceira via”, como se intitula a articulação de partidos e personalidades da política que busca uma alternativa eleitoral entre as candidaturas naturais de Bolsonaro e o ex-presidente Lula, se constrói também e, sobretudo, a partir do Estado de São Paulo com o projeto do governador João Doria de chegar ao Palácio do Planalto. Este também o tema que abordo no podcast Você não sabe, mas precisa.

Mais especificamente ainda, se quisermos dar significância para a política regional e o ”poder local”, peso e força política aos prefeitos que são as principais lideranças regionais, podemos dizer que a construção da terceira via entre Lula e Bolsonaro depende e muito das lideranças políticas, inclusive na da Região Oeste da Grande São Paulo, onde Bolsonaro teve apoio em 2018. Muito provável que este apoio não se repita em 2022 por motivos óbvios (pandemia da Covid-19, CPI da Covid, denúncias de corrupção e a rejeição do presidente).

Mesmo os prefeitos que apoiaram Márcio França, como no caso de Marcos Neves em Carapicuíba (que inclusive foi coordenador regional da campanha de França) quanto do prefeito Rubens Furlan, de Barueri, do PSDB, a Igor Soares, prefeito reeleito de Itapevi, do partido Podemos, apoiaram Bolsonaro. As divergências quanto à escolha do melhor candidato ao Governo do Estado não interferiu na unanimidade da escolha na esfera federal.

Mas porque cito especificamente essa região do País? Ela representa “apenas” cerca de 2% do eleitorado nacional. Digo isso porque temos no jogo uma peça fundamental no centro do tabuleiro. O presidente estadual do PSDB de São Paulo é Marco Vinholi, filho de Geraldo Vinholi, ex-prefeito do município de Catanduva (interior de SP) e atual secretário de Governo de Barueri (um dos municípios mais importantes da Região Metropolitana de SP) e governado pelo prefeito Rubens Furlan, seis vezes prefeito da cidade ao longo de uma carreira política de 45 anos que inclui ser pai da deputada federal Bruna Furlan eleita pela terceira vez pelo PSDB de São Paulo nas eleições de 2018, além de ter sido vereador, deputado federal e nome que circulou nos corredores da política com vista ao ao governo paulista que, claro, terá Rodrigo Garcia, o atual vice-governador de Doria.

Bolsonaro não terá o voto dessas lideranças sequer em um 2º. Turno, reforçando assim o peso da “terceira via”, pendendo para João Doria. Sim, porque o fato de abandonar Bolsonaro não quer dizer que essas lideranças adeririam a Lula, mas, no mínimo, este cenário já mostra que Bolsonaro não contará com a força inercial que teve em 2018.

Será primordial que João Doria conquiste sua 1ª vitória na Batalha das Convenções internas do PSDB antes de se lançar à conquista da Grande Guerra, que será a disputa presidencial. Bom, no PSDB Doria não terá Geraldo Alckmin para concorrer nas prévias, Alckmin deve ir para o PSD de Kassab. Ambos só estão no mesmo partido e não vão se alinhar porque os dois querem ser presidente.

O número de pessoas que não quer votar “nem em Bolsonaro e nem Lula”, seria suficiente para alçar uma “3ª Via” ao 2º Turno. Sendo assim,  não seria nada absurdo considerar que, se Doria conseguir passar pelas prévias do PSDB, pode, de fato, se configurar naquilo que o mercado e parte considerável dos eleitores, sobretudo da classe média, buscam ansiosamente: uma terceira via que nem seja Lula, nem Bolsonaro. Aliás, vale assinalar aqui o que disse ao jornal Valor Econômico, o ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga, que também vê espaço para a formação da terceira via na corrida eleitoral. Ele acredita, e comungo da opinião já há algum tempo,que Bolsonaro deve chegar à corrida eleitoral fragilizado. De fato, a vantagem ostentada de Bolsonaro parece não existir mais e é uma enorme vitrine de vidro.

Na entrevista de Armínio ao Valor ele prevê grande chance de moderação por parte de Lula, assim como ocorreu em 2002 e aproximação de setores do mercado com o ex-presidente petista. Ora, Lula está na pista, mas de todo modo o fato é que a formação da terceira via é uma realidade com Doria sendo um Forest Gump, aglutinando forças para 2022. Não menosprezem João Doria.